Os olhos se escancararam quando abri a porta e o vi abrindo
um sorriso meio inseguro. Era direito dele ir embora naquela hora, não gostar,
me xingar, dizer que era feio, mas você só me perguntou se eu iria deixá-lo lá
de fora ou o convidaria para entrar. Apreciei mais um pouco aquele sorriso,
afastei um pouco a porta que já me servira agora de apoio em detrimento das
pernas bambas e o puxei com certa delicadeza para dentro.
Sentou-se no meu sofá e conversamos por horas sobre o clima
da cidade. Como não havia mais fatores
que eu lembrava pra justificar aqueles dias todos sem chover o chamei pra
conhecer o meu quarto (fiquei parecendo ser uma pessoa fácil quando falei de ir
visitar o meu ninho). Ele me olhou com uma cara de “o que você quer fazer no
seu quarto?” e eu já respondi antes dele perguntar de verdade: “calma que eu
não vou te matar como fiz com os outros no meu quarto, você vai ser na
cozinha”, com uma cara séria. Ele riu muito daquilo. Eu tava tentando ser
engraçado pra não dizer coisas idiotas, mas o meu engraçado era ser idiota
então dava no mesmo. Levantamos e fomos pra lá. Escancarei a porta com a toalha
branca pendurada e ao delimitar a fronteira ele já foi direto pra prateleira de
livros. Retirou da posição a obra de Cecília Meireles e a assoprou retirando a
camada excessiva de poeira que eu havia deixado acumular por desleixe. Eu corro
tentando mostrar que tenho reflexo rápido pra tentar salvar a tempo de não cair
no chão alguns outros livros que foram puxados pela força da gravidade. Ele
pede desculpas. Apalpa meu travesseiro azul e senta na cama com o livro no
colo.
Por um momento ele esquece que eu estou ali, olhando atento
para as páginas e folheando alguns poeminhas que eram menores e mais rápidos de
serem lidos. Eu digo que não gosto muito de poesia. Ele fecha o livro e joga-o
pro lado. Eu escoro na cabeceira da cama e começo criquilar como um grilo, parece
que ficamos sem assunto. Fico pensando no próximo passo daquilo tudo e parece
que ele está pensando a mesma coisa. O olhar dele agora parece ser convidativo,
antes era a porta da minha casa que se abria pra ele, agora eram os seus olhos
que me convidavam para adentrar e conhecer aquele mundo que parecia ser
interessante visto de cima. Pego na sua mão, aperto-a pra demonstrar segurança
e dou uma piscadinha com um olho só pra quebrar o clima tenso que o ambiente estava
causando. Ele sorri meio alto para aquele momento. Eu o beijo levemente,
envolvendo os braços sobre aquele corpo que já me pertencia de alguma forma e
viajamos dali, pra além de que qualquer livro já pôde me levar.
Myke Bevilacqua

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