quinta-feira, 21 de março de 2013


A gente gasta maiores noites de sono planejando os próximos 100 anos com o cara, gastando papel, tinta de caneta e a reserva de criatividade-inspiração. Planeja-se o nome dos filhos, a decoração do quarto deles, a quantidade de animais da casa e casamento. Mas acontece que o pedido de namoro nem rolou ainda. E por uma falha dos signos ou por um erro de ambas as parte, por um único erro, um errinho, ele vira pra mim e diz que o nosso amor não vai ser possível. Isso quando a desculpa do problema não é ele: "o problema é comigo, e não com você". Arruma uma desculpa qualquer e se manda. Falar que eu sou feio, chato ou inconsistente até que vai. É uma desculpa plausível, mas culpar você mesmo ou a cosmologia pela sua incoerência no adeus é demais pra mim. Costumava compará-lo as estrelas e blá blá blá. Todo aquele romantismo retardado e bobo que nos atinge. Depois a gente só quer mesmo que as estrelas, ele e todo mundo se exploda. Que todos se choquem contra si e desapareçam do céu-terra-mente-coração. Eu só queria um romance. Nem fadas, doentes ou unicórnios. que o cara não me deixe no primeiro defeito. No primeiro erro. Na primeira briga. Tão achando que o papel pra escrever todas essas porcarias tá barato? 
Myke Bevilacqüa

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Venha, coloque suas mãos no fogo.
ou não esconda mais o que você é
demonstre que você é forte
que não precisa esconder suas feridas para sair na rua
que não deixa se abater por pessoas que querem te deixar pra baixo
liberte-se
ou venha
para onde eu cheguei
talvez não tão ruim do que aqui
mas aqui não toca música
aqui você não ouve nada além de sons de pássaros, cachoeiras e o vento no assoalho.
talvez eu até preferisse por aí
mas a vida me obrigou depois que me mataram por dentro
me tiraram tudo
desde a pureza, até a minha dignidade.
me quiseram como eles queriam ser
e não como eu queria ser
tentaram me tratar como um papel onde me desenhavam
com trejeitos que não eram meus; 
me sentia pressionado e arraigado com a pressão que isso me fazia
não deu tempo de eu cuidar da minha mãe velhinha
dos meu filhos
dos netos que ela queria
de conhecer o amor da minha vida que eu sentia ser do mesmo sexo
me tiraram tudo
antes de eu mesmo decidir
se queria mesmo ir
mas por uma decisão equivocada 
parti
sem eira
nem beira
afundado num abismo
de falta de caráter e pessoas sujas
perdi o brilho nos olhos
perdi a inspiração para tentar viver
e talvez o suicídio não tenha sido tão ruim assim.
Myke Bevilacqua, para Jamey


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012


“Eu só precisava de atenção e aqueles meses foram os mais gratificantes pra mim. Algumas mensagens de dia, ligações de “eu te amo” a noite e mentiras saindo da boca tão naturalmente que eu acreditaria e platonizaria um amor pelo qual eu estava prestes a organizar todo o meu casamento e os próximos 100 anos com aquela pessoa. Mesmo a distância quilométrica que nos separava, o amor se dizia ser maior, na verdade o pseudo-amor, da sua parte, é claro. Mas quando eu dizia aquelas palavras que faziam todo sentido do mundo pra mim, era verdade. A cada dia mais eu estava prestes a abrir mão dos meus quatro filhos e ter apenas três como você mesmo afirmava. Sua função era somente tentar me fazer feliz. É fácil na verdade me fazer feliz. Era só continuar dizendo que gostava de mim mais que tudo todos os dias. Simples não? Mais barato que conquistar uma criança. Sim, por que criança é na base do doce, dos brinquedos. Eu só a base do amor, do carinho, da verdade. Infelizmente você falhou comigo. E hoje eu só quero que essa distância que antes nos separava seja maior a cada dia.”
Myke Bevilacqua

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Aprendi que em orações com o verbo ser e estar, quando os dois sujeitos pertencerem ao mesmo verbo, não se coloca vírgula entre elas, mesmo as regras dizendo que sim. 
Myke Bevilacqua
    Os olhos se escancararam quando abri a porta e o vi abrindo um sorriso meio inseguro. Era direito dele ir embora naquela hora, não gostar, me xingar, dizer que era feio, mas você só me perguntou se eu iria deixá-lo lá de fora ou o convidaria para entrar. Apreciei mais um pouco aquele sorriso, afastei um pouco a porta que já me servira agora de apoio em detrimento das pernas bambas e o puxei com certa delicadeza para dentro.
   Sentou-se no meu sofá e conversamos por horas sobre o clima da cidade.  Como não havia mais fatores que eu lembrava pra justificar aqueles dias todos sem chover o chamei pra conhecer o meu quarto (fiquei parecendo ser uma pessoa fácil quando falei de ir visitar o meu ninho). Ele me olhou com uma cara de “o que você quer fazer no seu quarto?” e eu já respondi antes dele perguntar de verdade: “calma que eu não vou te matar como fiz com os outros no meu quarto, você vai ser na cozinha”, com uma cara séria. Ele riu muito daquilo. Eu tava tentando ser engraçado pra não dizer coisas idiotas, mas o meu engraçado era ser idiota então dava no mesmo. Levantamos e fomos pra lá. Escancarei a porta com a toalha branca pendurada e ao delimitar a fronteira ele já foi direto pra prateleira de livros. Retirou da posição a obra de Cecília Meireles e a assoprou retirando a camada excessiva de poeira que eu havia deixado acumular por desleixe. Eu corro tentando mostrar que tenho reflexo rápido pra tentar salvar a tempo de não cair no chão alguns outros livros que foram puxados pela força da gravidade. Ele pede desculpas. Apalpa meu travesseiro azul e senta na cama com o livro no colo.
   Por um momento ele esquece que eu estou ali, olhando atento para as páginas e folheando alguns poeminhas que eram menores e mais rápidos de serem lidos. Eu digo que não gosto muito de poesia. Ele fecha o livro e joga-o pro lado. Eu escoro na cabeceira da cama e começo criquilar como um grilo, parece que ficamos sem assunto. Fico pensando no próximo passo daquilo tudo e parece que ele está pensando a mesma coisa. O olhar dele agora parece ser convidativo, antes era a porta da minha casa que se abria pra ele, agora eram os seus olhos que me convidavam para adentrar e conhecer aquele mundo que parecia ser interessante visto de cima. Pego na sua mão, aperto-a pra demonstrar segurança e dou uma piscadinha com um olho só pra quebrar o clima tenso que o ambiente estava causando. Ele sorri meio alto para aquele momento. Eu o beijo levemente, envolvendo os braços sobre aquele corpo que já me pertencia de alguma forma e viajamos dali, pra além de que qualquer livro já pôde me levar.
Myke Bevilacqua


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

E eu não vou ficar frente ao espelho dizendo a mim mesmo “eu não gosto dele, eu não gosto dele…” assim como Tati. E nem desejando pra todos os cantos “que seja doce” “que seja doce” que nem exclama Caio. Eu não vou fazer isso. Eu quero mais é gritar pelos quatro cantos do mundo: “eu te amo mais que tudo” e que apenas seja. Apenas que seja. Eu, você... que sejamos.
Myke Bevilacqua
Eu te vejo a qualquer lugar que eu olho ou estou. Não basta mais eu querer te ver. Você aparece nas coisas alegres e nas coisas tristes. Nas coisas novas e nas coisas velhas. E quando você me aparece acho graça e rio de tudo. Talvez eu seja mesmo um louco como dizem por aí, mas ninguém vê essas cenas e como você está nelas. Até mesmo olhar pra uma xícara me faz pensar em milhões de possibilidades: eu e você estar tomando um cafezinho numa manhã gelada na nossa futura casa ou recolhendo os cacos de uma outra que foi espatifada no chão depois de você tê-la deixado cair por ter te apresentado ao nosso cachorrinho como seu presente de aniversário. Cara, se você visse o que eu vejo, se buscasse o que eu anseio, haveria mais finais felizes acontecendo por aí.
Myke Bevilacqua

A gente gasta maiores noites de sono planejando os próximos 100 anos com o cara, gastando papel, tinta de caneta e a reserva de criativi...